terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os vários Eus de Fernando Pessoa

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS-DCHT
CAMPUS XVI- DEPARTAMENTO DE LETRAS

Adelmo Ferreira Abreu*
Danila Miranda Vaz*
Eliud pereira de Souza Jacome*
Lais Souza de Oliveira*
Marco Antônio Cambui*
Rafael Souza Mendes*
Simone Cândida Nunes*



RESENHA
BERARDINELLI, Cleonice. “Fernando Pessoa: outra vez te revejo...”

Trabalho apresentado ao Prof. Orlando Freire Júnior, do programa de Graduação em Letras da Universidade do Estado da Bahia, Campus XVI – Irecê-BA – como parte dos requisitos para a conclusão da disciplina Aspectos da Literatura portuguesa.

BERARDINELLI, Cleonice. Fernando Pessoa: outra vez te revejo. Cap. Os vários Eus. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004. 
 
Cleonice Serôa Berardinelli nasceu em 28 de agosto de 1916 na cidade do Rio de Janeiro, mas morou em inúmeras cidades Brasileiras, já que seu pai, um apaixonado pela literatura, era oficial do exército e esteve sujeito a constantes transferências de uma cidade para outra. Dona de um currículo invejável, Berardinelli cursou Letras neolatinas na USP em 1938. E no ano de 1959 torna-se livre-docente de Literatura Portuguesa por concurso pela Faculdade Nacional de Filosofia, quando defendeu a primeira tese (Poesia e poética de Fernando Pessoa) dedicada a Fernando Pessoa em terras brasileiras (e a segunda no mundo). È orientadora de teses de doutorado e dissertações de mestrados. Especialista em estudos sobre Gil Vicente e Camões, além é claro, de Fernando Pessoa. Possui um vasto número de obras publicadas, dentre elas Estudos camonianos (1973); Obra em prosa: Fernando Pessoa (1974); Estudos de Literatura Portuguesa (1985); Álvaro de Campos – A passagem das horas (1988); Poemas de Álvaro de Campos (1990) e Fernando Pessoa: outra vez te revejo... (2004). Em 2009, Cleonice foi eleita membro efetivo da Academia Brasileira de Letras tomando posse em abril de 2010.
No livro “Fernando Pessoa: Outra vez te revejo...”, de Cleonice Bernadinelli, em especial o capitulo “Fernando Pessoa: os vários eus”, a autora expressa as suas ideias com uma linguagem bastante formal, mas que por sua vez não dificulta a compreensão. O texto é estruturado de forma bem complexa, uma vez que é pequeno e contém várias citações e referências de outros autores, o que dificulta a leitura contínua do texto.
A autora tem como proposta, fazer uma comparação entre os heterônimos de Fernando Pessoa, entre os seus vários eus. Para isso, faz uso de várias citações do próprio Fernando Pessoa, essas que por sua vez relatam como surgiu cada heterônimo, assim, como as suas biografias, a personalidade e as principais características físicas e psíquicas de cada um deles.
Fernando Pessoa afirma não conhecer a si próprio, não conhecer a sua personalidade, pois é um ser múltiplo, muito diverso. O mesmo afirma também ser um poeta dramático, mas escrevia com uma dramaticidade diferente de Shakespeare, pois escrevia dramas em almas e não em atos e ações. Desde criança ele tinha uma grande imaginação. Criava um mundo de seres inexistentes, mas que na sua mente tinha vida própria e essa capacidade imaginária perpassou da adolescência para sua vida adulta, dando então uma origem aos seres de sua mente chamados de heterônimos literários.
O primeiro heterônimo a ser criado foi Ricardo Reis, nasceu sem que ele mesmo soubesse, aparecendo numa penumbra. Pessoa afirma que seu segundo heterônimo foi Alberto Caeiro a quem chamou de seu mestre, pois diz que ao criá-lo teve a sensação de ser seu discípulo. Outro heterônimo foi criado e teve como nome Álvaro de Campos, a este Pessoa doou toda a sua emoção que não doou nem a ele nem a sua vida.
Em meio a tantos heterônimos podemos nomear como os três principais, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, em cada um colocou algo de si mesmo, características fundamentais como a despersonalização dramática no primeiro, a disciplina mental no segundo, e a emoção no terceiro, porém, algumas características e sentimentos Fernando Pessoa disse não aceitar e nunca havia sentido.
O fenômeno da heteronímia é algo intrigante, inovador e surpreendente na personalidade e na criação literária de Fernando Pessoa. Ainda na atualidade muitos estudiosos se debruçam sobre sua vasta obra literária buscando compreender o que alguns entendem como loucura e outros defendem como genialidade de um grande pensador. O próprio Pessoa, segundo citações transcritas no texto de Berardinelli, dizia não se importar com que o chamassem de louco, mas exigia que sua possível loucura fosse comparada a de Shakespeare.
Berardinelli traz em seu texto a voz de Pessoa para tentar explicar a complexidade e ao mesmo tempo a beleza e a singularidade da literatura pessoana. Na qual um único poeta, o próprio Fernando Pessoa fala disso, se transforma, se multiplica em várias personalidades, para que a literatura se transforme em algo maior que seu criador.
Em um texto conciso, capítulo de pouco mais de cinco páginas, Cleonice Berardinelli revela a magia, o encanto, o mistério e a complexidade de um dentre os vários autores da literatura. No qual é possível ouvir, através das citações, a voz de Fernando Pessoa diante de algo que intriga, encanta e paralisa inúmeras mentes intelectuais ou legais pelo mundo. A heteronímia em Pessoa é um traço marcante de sua obra, na qual ele dá voz e vez, não se sabe se por vontade própria ou não a outras personalidades, ás vezes díspares da sua essência pessoana.
O texto de Berardinelli possibilita uma reflexão acerca das várias personalidades criadas por Fernando Pessoa e de certa forma, requer grande atenção no ato da leitura para que possa ser compreendido. A variação nos sentimentos e emoções é da realidade do ser humano, Observa-se a importância desse texto para apreensão do imaginário íntimo de cada pessoa. A princípio a leitura do texto estabelece uma difícil compreensão, requerendo assim, outras leituras para que possa ser entendido. Não é comum encontrar autores que criam dentro de si, outros autores, sendo esses nomeados heterônimos e dando-lhe traços diferenciadores entre os mesmos.  
O texto é indicado para professores e alunos tanto do ensino médio quanto do ensino superior, pois, possibilita que os mesmos reflitam sobre as personalidades internas de cada um.  É aconselhável a leitura para todos que têm interesse em ampliar seus conhecimentos literários, despertando assim um olhar reflexivo sobre o tema estudado.

IRECÊ-BA,  2013

   

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