UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS-DCHT
CAMPUS XVI- DEPARTAMENTO DE LETRAS
Adelmo Ferreira
Abreu*
Danila Miranda Vaz*
Eliud pereira de
Souza Jacome*
Lais Souza de
Oliveira*
Marco Antônio Cambui*
Rafael Souza Mendes*
Simone Cândida Nunes*
RESENHA
BERARDINELLI,
Cleonice. “Fernando Pessoa: outra vez te
revejo...”
Trabalho apresentado ao Prof. Orlando Freire Júnior, do programa de
Graduação em Letras da Universidade do Estado da Bahia, Campus XVI – Irecê-BA –
como parte dos requisitos para a conclusão da disciplina Aspectos da Literatura
portuguesa.
BERARDINELLI, Cleonice. Fernando
Pessoa: outra vez te revejo. Cap. Os
vários Eus. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004.
Cleonice Serôa Berardinelli nasceu em 28 de agosto de 1916
na cidade do Rio de Janeiro, mas morou em inúmeras cidades Brasileiras, já que
seu pai, um apaixonado pela literatura, era oficial do exército e esteve
sujeito a constantes transferências de uma cidade para outra. Dona de um
currículo invejável, Berardinelli cursou Letras neolatinas na USP em 1938. E no
ano de 1959 torna-se livre-docente de Literatura
Portuguesa por concurso pela Faculdade Nacional de Filosofia, quando defendeu a
primeira tese (Poesia e poética de Fernando Pessoa) dedicada a Fernando Pessoa
em terras brasileiras (e a segunda no mundo). È orientadora de teses de
doutorado e dissertações de mestrados. Especialista em estudos sobre Gil
Vicente e Camões, além é claro, de Fernando Pessoa. Possui um vasto número de obras
publicadas, dentre elas Estudos camonianos (1973); Obra em prosa:
Fernando Pessoa (1974); Estudos de Literatura Portuguesa (1985); Álvaro
de Campos – A passagem das horas (1988); Poemas de Álvaro de Campos
(1990) e Fernando Pessoa: outra vez te revejo... (2004). Em 2009,
Cleonice foi eleita membro efetivo da Academia Brasileira de Letras tomando
posse em abril de 2010.
No livro “Fernando Pessoa: Outra vez te revejo...”, de
Cleonice Bernadinelli, em especial o capitulo “Fernando Pessoa: os vários eus”,
a autora expressa as suas ideias com uma linguagem bastante formal, mas que por
sua vez não dificulta a compreensão. O texto é estruturado de forma bem
complexa, uma vez que é pequeno e contém várias citações e referências de
outros autores, o que dificulta a leitura contínua do texto.
A autora tem como proposta, fazer uma comparação entre os
heterônimos de Fernando Pessoa, entre os seus vários eus. Para isso, faz uso de
várias citações do próprio Fernando Pessoa, essas que por sua vez relatam como
surgiu cada heterônimo, assim, como as suas biografias, a personalidade e as
principais características físicas e psíquicas de cada um deles.
Fernando Pessoa afirma não conhecer a si próprio, não
conhecer a sua personalidade, pois é um ser múltiplo, muito diverso. O mesmo afirma
também ser um poeta dramático, mas escrevia com uma dramaticidade diferente de
Shakespeare, pois escrevia dramas em almas e não em atos e ações. Desde criança
ele tinha uma grande imaginação. Criava um mundo de seres inexistentes, mas que
na sua mente tinha vida própria e essa capacidade imaginária perpassou da
adolescência para sua vida adulta, dando então uma origem aos seres de sua
mente chamados de heterônimos literários.
O primeiro heterônimo a ser criado foi Ricardo Reis, nasceu
sem que ele mesmo soubesse, aparecendo numa penumbra. Pessoa afirma que seu
segundo heterônimo foi Alberto Caeiro a quem chamou de seu mestre, pois diz que
ao criá-lo teve a sensação de ser seu discípulo. Outro heterônimo foi criado e
teve como nome Álvaro de Campos, a este Pessoa doou toda a sua emoção que não
doou nem a ele nem a sua vida.
Em meio a tantos heterônimos podemos nomear como os três
principais, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, em cada um colocou
algo de si mesmo, características fundamentais como a despersonalização
dramática no primeiro, a disciplina mental no segundo, e a emoção no terceiro,
porém, algumas características e sentimentos Fernando Pessoa disse não aceitar
e nunca havia sentido.
O fenômeno da heteronímia é algo intrigante, inovador e
surpreendente na personalidade e na criação literária de Fernando Pessoa. Ainda
na atualidade muitos estudiosos se debruçam sobre sua vasta obra literária
buscando compreender o que alguns entendem como loucura e outros defendem como
genialidade de um grande pensador. O próprio Pessoa, segundo citações
transcritas no texto de Berardinelli, dizia não se importar com que o chamassem
de louco, mas exigia que sua possível loucura fosse comparada a de Shakespeare.
Berardinelli traz em seu texto a voz de Pessoa para tentar
explicar a complexidade e ao mesmo tempo a beleza e a singularidade da
literatura pessoana. Na qual um único poeta, o próprio Fernando Pessoa fala
disso, se transforma, se multiplica em várias personalidades, para que a
literatura se transforme em algo maior que seu criador.
Em um texto conciso, capítulo de pouco mais de cinco
páginas, Cleonice Berardinelli revela a magia, o encanto, o mistério e a
complexidade de um dentre os vários autores da literatura. No qual é possível
ouvir, através das citações, a voz de Fernando Pessoa diante de algo que
intriga, encanta e paralisa inúmeras mentes intelectuais ou legais pelo mundo.
A heteronímia em Pessoa é um traço marcante de sua obra, na qual ele dá voz e
vez, não se sabe se por vontade própria ou não a outras personalidades, ás
vezes díspares da sua essência pessoana.
O texto de Berardinelli possibilita uma reflexão acerca das
várias personalidades criadas por Fernando Pessoa e de certa forma, requer
grande atenção no ato da leitura para que possa ser compreendido. A variação
nos sentimentos e emoções é da realidade do ser humano, Observa-se a
importância desse texto para apreensão do imaginário íntimo de cada pessoa. A
princípio a leitura do texto estabelece uma difícil compreensão, requerendo
assim, outras leituras para que possa ser entendido. Não é comum encontrar
autores que criam dentro de si, outros autores, sendo esses nomeados
heterônimos e dando-lhe traços diferenciadores entre os mesmos.
O texto é indicado para professores e alunos tanto do ensino
médio quanto do ensino superior, pois, possibilita que os mesmos reflitam sobre
as personalidades internas de cada um. É
aconselhável a leitura para todos que têm interesse em ampliar seus
conhecimentos literários, despertando assim um olhar reflexivo sobre o tema
estudado.
IRECÊ-BA, 2013
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